Autismo: convivência alicerçada no amor e no estímulo ao desenvolvimento

por: Juliana Bencke
Data: 27/08/2017 | 08:20
Foto: Juliana Bencke / Folha do Mate Atividades com a estimuladora precoce Paula estão entre os atendimentos que Henrique recebe na Apae
Atividades com a estimuladora precoce Paula estão entre os atendimentos que Henrique recebe na Apae

Enquanto cola pedaços de massinha de modelar no espelho, com a ajuda da estimuladora precoce Paula Cristina Fernandes, Henrique Dutra da Silva, 6 anos, tranquiliza-se. Autista, ele participa de atendimentos semanais na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Nos cerca de 45 minutos que permanece no local, a massinha de modelar e as tintas coloridas são algumas das ferramentas em atividades que buscam desenvolver suas habilidades de comunicação, interação social e comportamento – áreas afetadas pelo Transtorno do Espectro Autista (TEA).

“No início, ele não queria nem entrar. Não ficava em nenhum lugar se não fosse comigo. Agora, já fica sozinho com a ‘profe'”, conta a mãe, Viviane Pinto da Silva, 35 anos. Embora Henrique ainda não tenha desenvolvido a fala nem iniciado o processo de alfabetização, ela percebe melhoras no comportamento do filho e na relação social, e torce para que, no futuro, ele consiga integrar uma turma e frequentar as aulas na Apae.

Embora sejam cerca de 45 autistas com acompanhamento na Apae, as atividades que ajudam Henrique não são exatamente as mesmas aplicadas aos demais. “Não existe fórmula mágica”, diz a psicóloga Letícia Staub Limberger, mestre em Educação. “Cada caso é um caso. Cada criança é diferente”, completa Paula.

A médica psiquiatra Gerisa Francine dos Santos explica que o Transtorno do Espectro Autista se manifesta de diferentes formas, dependendo da gravidade da condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade cronológica. “Daí o uso do termo espectro”, salienta.

Diagnóstico

De acordo com a psiquiatra, o diagnóstico do autismo é clínico, por meio de observação do comportamento e de informações da família. Dificuldade de contato olho no olho, isolamento, rosto inexpressivo, brincadeiras e movimentos repetitivos e dificuldade de criar vínculos de amizade e cooperação estão entre os sintomas do autismo. Alguns, já podem ser percebidos nos primeiros meses do bebê. “Via de regra, o transtorno se torna evidente no decorrer do segundo ano de vida e, em alguns casos, observa-se uma ausência de interesse nas interações sociais ainda no primeiro ano de vida”, comenta Gerisa.

Não existe indicação de determinada terapia medicamentosa para o tratamento específico do transtorno do espectro autista, mas é indicado quando existe alguma comorbidade neurológica ou psiquiátrica e quando os sintomas interferem no cotidiano.” Gerisa Francine dos Santos, psiquiatra.

Viviane soube que Henrique tinha autismo ao assistir a uma reportagem na televisão – até então, sentia que o filho era “diferente”, mas não sabia o porquê. “Percebi que ele tinha as mesmas características que apareciam na reportagem.” Na hora, ficou assustada. “Até então, não tinha tanto conhecimento sobre autismo.”

Foto: Arquivo pessoal / Folha do MatePsiquiatra Gerisa Francine dos Santos
Psiquiatra Gerisa Francine dos Santos

Com o início do atendimento na Apae, há três anos, descobriu que o filho mais velho, Estevan Dutra da Silva, na época com 5 anos, também era autista. Casos de irmãos com o transtorno são comuns, já que o fator hereditário, combinado com uma disfunção de um neurotransmissor e fatores ambientais, está entre as causas prováveis do autismo. “Os dois são autistas, mas são muito diferentes”, afirma Viviane.

O autismo atinge quatro vezes mais meninos do que meninas. A estimativa é de que a cada cem crianças, uma apresenta o transtorno.

“Personalizar, contextualizar e empoderar”

Embora não exista cura para o autismo, profissionais da área são unânimes em destacar a importância do apoio familiar, do acompanhamento multidisciplinar e da estimulação precoce no desenvolvimento das habilidades dos autistas e na garantia de mais qualidade de vida.

“Não existe cura. O que existe é uma sólida evidência de que enfoques educacionais adequados, o apoio de familiares e de profissionais e a disponibilidade de serviços de qualidade podem melhorar drasticamente a vida das pessoas com TEA e de seus familiares”, ressalta a psiquiatra Gerisa Francine dos Santos. “Há três palavras-chave que sintetizam o que deveria se fazer com pessoas com TEA: personalizar, contextualizar e empoderar”, enfatiza Gerisa.

A pedagoga e estimuladora precoce da Apae, Paula Cristina Fernandes, explica que a estimulação precoce é um programa de acompanhamento e intervenção clínica terapêutica multiprofissional com bebês e crianças. As atividades buscam melhorar o desenvolvimento, por meio do alívio de sequelas do desenvolvimento neuropsicomotor, da linguagem e da socialização.

A estimulação precoce pode contribuir, inclusive, na estruturação do vínculo mãe bebê e na compreensão e no acolhimento familiar dessas crianças.” Paula Cristina Fernandes, estimuladora precoce da Apae.

Paula observa, ainda, que a identificação do autismo, cada vez mais cedo, a partir dos 18 meses, tem garantido a intervenção precoce em muitos casos. “No caso do TEA, quanto mais cedo essas crianças tenham o estímulo, melhor.”

Autonomia 

De acordo com a psiquiatra Gerisa Francine dos Santos, apenas uma parte das pessoas com autismo vive e trabalha de forma independente na fase adulta. “Aqueles que o fazem tendem a ter linguagem e capacidades intelectuais superiores, conseguindo encontrar um nicho que combine com seus interesses e habilidades especiais”, afirma.

Ela observa, no entanto, que, mesmo esses indivíduos “podem continuar socialmente ingênuos e vulneráveis, com dificuldades para organizar as demandas práticas sem ajuda, mais propensos à ansiedade e depressão”.

Programação

De 21 a 28 de agosto, é comemorada a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla. A Apae de Venâncio Aires realiza uma série de atividades desde o dia 18. Na próxima semana, haverá atividades na terça-feira, 29, com brincadeiras na casa de festas Onça Pintada, para os alunos mais novos, e Chá das Amigas da Apae, na tarde de quinta-feira, 31. No mesmo dia, haverá encerramento da programação com apresentação do grupo de música no ginásio da Apae, de manhã e à tarde.
Informação e sensibilidade reforçam o processo de inclusão nas escolas

Com um número crescente de alunos com autismo nas escolas de educação infantil e ensino fundamental, a Secretaria Municipal de Educação começou, no início de agosto, uma formação para profissionais das instituições de ensino. “O objetivo é capacitá-los com elementos básicos e estratégias para trabalhar com autistas. Os autistas estão dentro da escola regular. É um direito deles e precisamos garantir isso”, salienta a coordenadora pedagógica Alice Theis.

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateÉvelin, Chana e Juliane estão à frente da capacitação aos profissionais da rede municipal de ensino
Évelin, Chana e Juliane estão à frente da capacitação aos profissionais da rede municipal de ensino

A assessora pedagógica da educação especial, Juliane Weiss Niedermayer, lembra que diagnosticar o autismo não é uma atribuição dos professores. No entanto, observa que, na escola, é possível identificar sinais que podem levar à descoberta do TEA. Além disso, conhecendo as características do transtorno e a forma de lidar com os autistas, pode-se melhorar a qualidade de vida do aluno e a sua vivência em sala de aula. “A sensibilidade aliada ao conhecimento é o fio condutor dessa relação”, acredita.

Juliane e as assessoras psicoeducacionais Chana Tischer Sulzbacher e Évelin Tatielle Fröhlich reforçam que, apesar de o autismo não ter cura, é possível desenvolver a comunicação e a interação, por meio do acompanhamento multiprofissional e de estratégias efetivas de inclusão.

O aluno autista ter que sair da sala em alguns momentos não é falta de comportamento, mas uma prática de inclusão.” Juliane Weiss Niedermayer, assessora pedagógica.

Como os autistas são mais sensíveis a estímulos visuais e auditivos, Juliane sugere algumas práticas que podem reduzir as chances de o estudante entrar em crise. Entre elas, estão não deixar cartazes muito coloridos próximos do autista e utilizar uma linguagem direta ao orientar atividades, pois eles têm dificuldade de compreender frases subjetivas e metáforas.

Além disso, de acordo com ela, outra questão importante é respeitar a impossibilidade de um autista participar de uma exposição de trabalhos, por exemplo, em um espaço com muito barulho, movimento de pessoas e estímulos visuais.

Da mesma forma, a educadora especial e as assessoras psicoeducacionais explicam que os movimentos repetitivos, em círculos ou mesmo gritos são formas de o autista buscar uma regulação interna para conseguir lidar com estímulos externos, como sons altos ou alterações na rotina. “Temos que conhecer esse aluno a fundo para traçar um plano para ele. É importante lembrar que os autistas não são iguais. Cada um tem tem um grau do espectro autista e a sua personalidade”, diz Chana.

Profissional de apoio

Parte dos autistas matriculado na rede municipal conta com um profissional de apoio – um estagiário que atua como monitor, oferecendo suporte ao aluno. Segundo Juliane, em geral, eles atuam na assistência a autistas na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental. “Conforme está previsto na legislação, é garantido um profissional de apoio sempre que necessário. Para alguns não é necessário, porque têm mais autonomia”, esclarece.

SAIBA MAIS

– A Apae oferece atividades de estimulação precoce a autistas de até 4 anos. Além disso, as crianças contam com uma assistência multiprofissional, com profissionais como psicóloga e fonoaudióloga;

– Por volta dos 3 anos, os autistas começam a ser preparados para participar de uma turma, de acordo com as suas possibilidades. A partir dos 4 anos, eles passam a frequentar a educação infantil, na própria Apae;

– Aos 6 anos, é iniciado o processo de alfabetização na Apae. De acordo com a possibilidade e o grau de autismo, a criança também pode ser encaminhada a escolas regulares;

– Além de alunos vinculados à Apae, a instituição oferece acompanhamento multiprofissional a crianças com graus mais leves de autismo, que frequentam escolas regulares;

– O processo inverso também ocorre. Alunos de escolas municipais que apresentam sinais do Transtorno de Espectro Autista podem ser encaminhados ao Centro Integrado de Educação e Saúde (Cies), para avaliação profissional, e à Apae;

– Em alguns casos, além do autismo, há outras deficiências ou síndromes associadas. Por isso, e de acordo com o grau do autismo de cada criança, ela pode se alfabetizar ou não. O mesmo ocorre com o processo da fala. “Já tivemos aluno que chegou aqui sem falar nada, mas se alfabetizou, se formou no ensino médio e foi para o mercado de trabalho”, conta a fonoaudióloga Josiane Felin.

http://www.folhadomate.com/noticias/geral15/autismo-convivencia-alicercada-no-amor-e-no-estimulo-ao-desenvolvimento

Notícias Relacionados(as)

ENCAMINHE POR EMAIL

Todas as notícias

ENCAMINHE ESSA NOTÍCIA POR EMAIL

Formulário de Proposta

COMPARTILHE NAS REDES SOCIAIS

Facebook Twitter